A ureia é a principal representante da classe de nitrogênio não proteico (NNP). Ela é amplamente utilizada em dietas e suplementos para bovinos, em substituição parcial às fontes de proteína bruta verdadeira, como farelo de soja, torta e farelo de algodão, DDG, entre outras.
Os compostos nitrogenados não proteicos são utilizados pelos microrganismos ruminais, especialmente bactérias, e apresentam equivalente proteico com menor custo por unidade do que fontes de proteína de origem vegetal.
Em geral, a proteína é o macronutriente de maior custo na alimentação animal, portanto, a ureia torna-se um importante meio de reduzir custos da alimentação, bem como melhorar o aporte proteico para os animais.
A ureia é 100% solúvel no rúmen e, após ser ingerida pelos animais, é rapidamente quebrada em amônia (NH3) pelas enzimas das bactérias ruminais, com pico de liberação entre uma e duas horas após sua ingestão.
Para que essa amônia seja utilizada para crescimento bacteriano no rúmen, é necessário que tenha energia proveniente dos carboidratos, ou seja, da forragem e concentrado da dieta, além dos minerais (Figura 1).

Figura 1. Fatores que afetam a síntese de proteína microbiana. Fonte: Adaptado de Owens e Zinn, 1988 citados por Santos 2006.
Durante todo o ano pode ocorrer deficiência de proteína bruta (PB) nas pastagens, mas o efeito mais marcante aparece na época seca. Nesse período, a carência de nitrogênio e outros nutrientes essenciais reduz drasticamente a eficiência de utilização dos capins tropicais.
A queda na qualidade e quantidade da forragem disponível refletem negativamente no valor nutricional desta como alimento para os ruminantes.
Consequentemente, ocorre uma redução na digestibilidade da forragem, acompanhada de maior tempo de retenção no rúmen. Esses fatores combinados resultam na diminuição do consumo voluntário pelos animais.
Os baixos teores de PB das forrageiras tropicais estão associados a elevados teores de fibra e compostos indigestíveis (lignina), que ocorrem com a maturidade das plantas. Nessas condições, a baixa degradação da forragem afeta o aproveitamento da energia dos carboidratos fibrosos das forrageiras, o consumo de matéria seca e o desempenho animal.
A ação das bactérias ruminais depende diretamente da disponibilidade de nitrogênio na dieta e, consequentemente, no rúmen. Em forragens de baixa qualidade, especialmente no período seco do ano, a deficiência desse nutriente limita a degradação dos carboidratos fibrosos. O fornecimento adicional de compostos nitrogenados, seja por meio de proteína verdadeira ou de fontes de nitrogênio não proteico (como suplementos ureado, proteinado ou proteico-energético), corrige essa limitação. Por isso, a suplementação é frequentemente adotada nessas condições, promovendo melhor desempenho dos animais ao suprir a carência de proteína e/ou nitrogênio da dieta basal.
As bactérias ruminais podem sintetizar aminoácidos e utilizá-los para seu crescimento a partir de compostos como a amônia, aminoácidos ou peptídeos. Assim, em condições de déficit de PB na dieta, o metabolismo animal prioriza a reciclagem de N, na tentativa de manter um suprimento contínuo de nitrogênio para o crescimento dos microrganismos no rúmen. Com isso, o animal reduz a excreção urinária de nitrogênio e ocorre aumento no N dietético que é reciclado no ambiente ruminal. No entanto, se a deficiência se torna mais severa, pode ocorrer aumento da utilização de tecido muscular do animal (perda de peso) para manter a reciclagem de N. Quando a quantidade de N não atende aos requerimentos das bactérias, ocorre limitação do crescimento microbiano (Sniffen et al., 1992) e redução da digestão da fibra do capim, o que leva à redução do consumo e à perda de peso dos animais.
Mesmo com todas essas vantagens, muitos produtores ainda demonstram receio em fornecer suplementos contendo ureia aos animais, devido ao risco de intoxicação que, em casos graves, pode levar à morte. No entanto, com a adoção de uma adaptação adequada e a observância de alguns cuidados de manejo, esses riscos podem ser significativamente reduzidos. Para isso, é fundamental seguir as recomendações abaixo:
- Realizar adaptação com aumento gradativo do suplemento com ureia;
- Após adaptação, fornecer no máximo 40 g de ureia/100 kg de peso vivo;
- Se houver interrupção do fornecimento de suplemento com ureia, refaça a adaptação;
- Na época de chuvas, atenção quanto ao fornecimento de suplemento com ureia. Embora a quantidade de ureia nesses produtos seja menor, é importante que seja fornecido em cochos cobertos e com furo, para evitar acúmulo de água (a ureia é altamente solúvel na água). O animal pode consumir grande quantidade da ureia que se solubilizou na água e assim ocorrer intoxicação;
- Ureia protegida só reduz a velocidade de quebra em amônia pelas bactérias dentro do rúmen. Portanto, se chover e acumular água no cocho, ela também será solubilizada e poderá intoxicar os animais;
- Atenção a animais famintos e/ou desmineralizados. Mesmo com sal branco e ureia que tem sabor amargo (menor palatabilidade), esses animais podem consumir grande quantidade de suplemento e, portanto, de ureia, podendo ocorrer intoxicação;
- Não substitua totalmente a proteína verdadeira da dieta por ureia. Essa estratégia tem benefícios em relação à redução dos custos do suplemento, no entanto, a fonte de proteína verdadeira é importante para fornecer alguns compostos para bactérias fibrolíticas e essencial para as bactérias que digerem amido/grãos. Portanto, é importante ter atenção na relação proteína vinda de fonte verdadeira e de NNP dos suplementos, através da proporção NNP equivalente proteico em relação à PB (NNP eq. Proteico/PB).
Conclusão
A utilização de ureia na suplementação de ruminantes representa uma estratégia eficiente e economicamente viável para corrigir deficiências de proteína bruta em pastagens, especialmente durante a seca, quando a qualidade da forragem é mais baixa. Além de reduzir custos de produção, seu uso adequado favorece a fermentação ruminal, melhora a digestibilidade da fibra e potencializa o desempenho animal. No entanto, para que esses benefícios sejam alcançados de forma segura, é indispensável respeitar os protocolos de adaptação e manejo, garantindo que a ureia seja utilizada como complemento, e não substituto total das fontes de proteína verdadeira. Assim, produtores podem conciliar eficiência nutricional, redução de custos e maior produtividade de forma sustentável.
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Referências Bibliográficas
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Lazzarini, I., et al. Dinâmicas de trânsito e degradação da fibra em detergente neutro em bovinos alimentados com forragem tropical de baixa qualidade e compostos nitrogenados. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 61, n. 3, p. 635-647, 2009.
Santos, F.A.P. Metabolismo de proteínas. In: BERCHIELLI, T.T; PIRES, A.V; OLIVEIRA, S.G. Nutrição de Ruminantes. Jaboticabal: FUNEP, 2006, cap. 9, p. 259-261.
Sniffen, C. J., et al. A net carbohydrate and protein system for evaluation cattle diets. II. Carbohydrate and protein availability. Journal of Animal Science, v. 70, n. 11, p. 3562-3577, 1992.





